Parece sério demais começar uma resenha dizendo que muitas vezes o que é expresso na arte reflete o momento histórico em que ela foi produzida? Parece né? Mas é verdade. Mesmo quando se trata de ficção. Partindo do princípio que o próprio autor disse que, ao escrever este livro, gostaria de criar uma espécie de Cidade de Deus dentro da Terra Média, podemos notar que há um material interessante e com uma abordagem um tanto ousada para os padrões da indústria. Ainda mais ao apostar em autores nacionais e de fantasia. Ordem Vermelha: Filhos da Degradação foi uma das melhores surpresas que encontrei ultimamente. Lançado na CCXP 2017 em parceria com a Editora Intrínseca, este livro nacional dificilmente sairia com críticas negativas de qualquer rodinha (ou cantinho) geek. Primeiro volume do que está planejado como uma duologia, Ordem Vermelha parte de uma base clássica, por vezes lembrando fantasias já aclamadas. Porém, tem um desenvolvimento próprio e com fortes inclinações nacionais. Isso traz uma identidade quase desconhecida a um público acostumado apenas aos grandes sucessos gringos nos quais a maior parte das editoras apostam. O primeiro ponto positivo aqui vai para a Intrínseca, que sendo um grande nome do mundo editorial atual, apostou em uma fantasia de autor brasileiro não apenas no processo de publicação, mas também de divulgação. A soma da qualidade do trabalho, da produção do material e do investimento em marketing certamente rendeu bons resultados. Segundo o Estadão, o livro esteve entre os 20 mais vendidos do catálogo de ficção da Intrínseca. Ficou na frente, inclusive, de grandes best-sellers internacionais que encabeçam as listas de vendas há anos.
Portanto, quando digo aqui que Ordem Vermelha foi uma leitura sensacional, sei que não sou apenas eu. As vendas corroboram, assim como Amazon e Skoob têm resenhas majoritariamente positivas. E não é por pouca coisa. A narração é dinâmica e empolgante na maior parte do tempo. Em um trecho ou outro o ritmo se perde, mas não é nada duradouro ou por acaso. E sempre volta atraindo o dobro da atenção. Em suas 448 páginas você encontra ação, aventura, um tanto de romance, personagens carismáticos e muita representatividade.
A história se passa em Untherak. No universo do livro, este é o único lugar que permaneceu existindo após os seis deuses representantes de todas as espécies se converterem em apenas uma Deusa de seis faces, chamada Una. Fora de Untherak há apenas a Degradação (daí o subtítulo), um deserto onde apenas bestas mortais habitariam. Em Untherak existem seis raças: humanos; kaorshs, que são seres esguios de aspecto humanoide, mas com o poder de colorir e criar ilusões na própria pele; anões; sinfos, que parecem sempre crianças e têm uma conexão única com a música e a pouca natureza restante; gnolls e gigantes. Ninguém ali é realmente livre e alguns, como Aelian, recebem uma marca no rosto para mostrar que têm uma dívida financeira com Una que, com suas seis faces, observa a todos do enorme monólito erguido em sua homenagem no início de seu reinado imortal de mil anos. Os marcados são obrigados a viver, dormir e trabalhar no Miolo, o “centro” de Untherak, que faz todo o lugar funcionar. Embora possam comprar a própria semi-liberdade, ainda devem viver sob os desígnios da Deusa Una e dentro dos portões da cidade. O preço exorbitante serve apenas para libertá-los do trabalho exaustivo e das limitações do Miolo — onde muitos preferem permanecer em troca de teto e ração garantidos, já que a vida fora dali não é muito mais fácil.
Aelian é um humano que serve no Poleiro, cuidando dos falcões que entregam as correspondências em Untherak. Frequentemente é seguido por um dos seus poucos amigos, o falcão Bicofino. Raazi, a outra protagonista, é uma kaorsh que trabalha no Tear, onde produzem os tecidos da cidade. Ambos os personagens são bem diferentes, mas ao mesmo tempo complementares. E se você pensou em romance, pode esquecer. Não é neste clichê que se complementam, mas em ideias e ideais. Raazi, inclusive, já é muitíssimo comprometida com outra kaorsh, que é uma lutadora exímia. Nenhum dos dois protagonistas está satisfeito com o que acontece em Untherak,mas têm reações iniciais muito diferentes. Enquanto Aelian continua servil até não ter mais escolhas, Raazi embarca com a esposa, Yanisha, em uma missão que elas mesmas reconhecem como suicida. Como é esperado da criação de um universo inteiro, Ordem Vermelha tem muitos detalhes, minúcias e alegorias. Muitos, mas sem nunca pecar pelo excesso. Vale mencionar brevemente outros personagens importantes como o sinfo Ziggy, um dos mais carismáticos, a misteriosa Aparição, o anão Harun e a mercenária Venoma. Além de conceitos como a Mácula, um líquido misterioso que há mil anos cobriu o sol e hoje mata, fortalece ou controla aqueles que a ela são submetidos, a Centípede, uma ordem que está sempre no encalço da Deusa Una e Proghon, um guerreiro imbatível, de aspecto aterrorizante e braço direito da Deusa. O autor Felipe Castilho já foi anteriormente finalista do prêmio Jabuti e alcançou certo renome em editoras menores,. Nesta obra conseguiu balancear tudo perfeitamente e deixar o leitor ansioso para o próximo volume, que infelizmente ainda não tem previsão de lançamento. Como citado anteriormente, Ordem Vermelha: Filhos da Degradação é uma obra imperdível, construída de uma forma que o leitor brasileiro se sente ainda mais imerso no universo fantasioso. Site oficial | Amazon | Skoob Já leu o livro? Deixe um comentário com a sua opinião! Principalmente se você, como eu, leu as cenas de batalha da mesma forma que o Felipe escreveu: ouvindo Hamilton.
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